Arquivo parajaneiro, 2012

Finge dor

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Veneno

De repente, serpente
Esmagando a vida
Quebrando-lhe os ossos
Sem dó

De repente, culpada
Por dar o bote
E provocar uma morte anunciada

De repente, eu
E tudo o que posso ser
Se é serpente, que assim seja
Com certeza princesa não é

Exercício de descrição – Um lugar bem pequeno

Depois que a conexão primeira se desfez, nada sobrou ali. Apenas um pequeno e demarcado declive na superfície plana e macia. Um erro de percurso, nem tão fundo e nem tão raso. Uma armadilha para pequenos montinhos de lã desavisados, que ali estacionavam sem escolha. As dobras em seu interior fazem daquele local ainda mais estreito e improvável.

umbigo

Inércia

Se vou, quero ficar
Se  fico, quero voltar
Se volto, quero voar

Que Lei da Inércia é essa
Que me põe pra fora
Que me manda embora
Que me deixa livre

Livre para duvidar

Trago

Hoje, pela primeira vez na vida, tive vontade de fumar um cigarro. Dirigir-me à banca mais próxima, comprar um, só um, avulso, solto, perdido. Em busca de alguém que o consumisse. Esta noite seria eu. Pedir o isqueiro do jornaleiro emprestado. Afinal, quem precisa de um isqueiro para fumar apenas um cigarro? Boa noite, obrigada. Não haveria uma próxima vez. Eu só queria sentir o tabaco ardendo, enquanto a fumaça surgiria, imponente. Era só por ela. A paz que ela traz, como se tudo queimasse e evaporasse, deixando apenas um odor desagradável no lugar dos pensamentos que antes existiam. Se deixar consumir por cada trago, sem saber que ele mata não só a dor, mas o resto também. Silencioso, anestesiante. As palavras na caixa que eu não comprei já diziam: Sofrimento. Ele tira, ele traz. Mas valeria a pena, só por hoje.

Enquanto saia em busca do meu sofrimento, não pude deixar de sentir falta dos passarinhos. Nunca acordados há essa hora. Sempre alegres durante o dia, sempre entocados durante a noite. Aposto que eles nunca precisaram de um cigarro. Liguei a música no modo randômico. Como é bom transferir a responsabilidade para um botão. Depois de alguns minutos percebi que andava com as mãos para trás, como se estivessem atadas. O que me prendia?

Não foi hoje que eu acendi a brasa.

(P.S.: Agora vejo que o cigarro avulso, solto e perdido era eu. E que, sim, me acendi e consumi. Mas as cinzas têm o poder da reparação.)

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