Hoje, pela primeira vez na vida, tive vontade de fumar um cigarro. Dirigir-me à banca mais próxima, comprar um, só um, avulso, solto, perdido. Em busca de alguém que o consumisse. Esta noite seria eu. Pedir o isqueiro do jornaleiro emprestado. Afinal, quem precisa de um isqueiro para fumar apenas um cigarro? Boa noite, obrigada. Não haveria uma próxima vez. Eu só queria sentir o tabaco ardendo, enquanto a fumaça surgiria, imponente. Era só por ela. A paz que ela traz, como se tudo queimasse e evaporasse, deixando apenas um odor desagradável no lugar dos pensamentos que antes existiam. Se deixar consumir por cada trago, sem saber que ele mata não só a dor, mas o resto também. Silencioso, anestesiante. As palavras na caixa que eu não comprei já diziam: Sofrimento. Ele tira, ele traz. Mas valeria a pena, só por hoje.
Enquanto saia em busca do meu sofrimento, não pude deixar de sentir falta dos passarinhos. Nunca acordados há essa hora. Sempre alegres durante o dia, sempre entocados durante a noite. Aposto que eles nunca precisaram de um cigarro. Liguei a música no modo randômico. Como é bom transferir a responsabilidade para um botão. Depois de alguns minutos percebi que andava com as mãos para trás, como se estivessem atadas. O que me prendia?
Não foi hoje que eu acendi a brasa.
(P.S.: Agora vejo que o cigarro avulso, solto e perdido era eu. E que, sim, me acendi e consumi. Mas as cinzas têm o poder da reparação.)